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quarta-feira, 27 de julho de 2011

O Outro lado do espelho

A transição fora tranquila, havia trocado de mundos e agora estava em um lugar onde a noite já havia chegado. O Sol não mais queimava sua pele. O céu estava estranho, ou ao menos lhe parecia assim, tinha um coloração diferente do habitual. Nuvens pareciam tumultuar provocando um movimento turbulento, algo que lembrava muito o mar, parecia água após uma tempestadade, cor de terra. O vento completava o cenário, dando movimento a paisagem, que transmitia um movimento revolto e sombrio.

Sabia que chegara ali com um objetivo, mas não conseguia lembrar, algo bloqueava sua mente. As lembranças de seu mundo sumiam de mansinho, e os poucos lampejos que tinham eram reflexos de uma situação no mundo atual. Estava perdida, não sabia onde estava nem o que fazer. Olhava para a estrela desenhada em seu pulso, uma marca de seu mundo, de seu tempo, mas sem passado, sua missão tinha algo com o desenho. O medalhão que carregava possuía a mesma marca, a diferença é que esta brilhava, e sabia que se a esfregasse e pensasse em casa, estaria de volta a seu mundo. Neste momento, um calafrio percorreu lhe o corpo. Se esquecesse de sua casa, não poderia voltar!

Precisava sair dali, e procurou pelo melhor caminho, olhou novamente a estrela do medalhão, e esta tinha apenas uma das pontas brilhando.  Sabia que ela lhe indicava o caminho. Não lembrava de sua missão, mas ao menos seria guiada para ela. E assim iniciou sua caminhada rumando para o leste, em direção as montanhas e, ao que parecia, uma tempestade de areia.

quarta-feira, 23 de março de 2011

Encontro com Saturno

Estava na estrada, num desses momentos em que dirigia apenas pelo prazer, sem rumo certo, apenas para reflexão... A constante na estrada costuma trazer conclusões rápidas, onde um devaneio não pode durar mais de dois segundos. Com a atenção dobrada, é fácil esvaziar a mente, e conseguir concentrar-se para o que realmente importa.

Não foi diferente nesse dia, havia entrado em conflito após fazer algumas contas, quando resolvi refletir o por que desse 'balanço' nunca equilibrar-se. Tudo estava confuso, de repente ouvia vozes fazendo perguntas e mais perguntas, cujas respostas eu sabia, mas tinha vergonha de pronunciá-las: o que você fez, o que você tem, o que você é, o que pretende mudar, o que pretender ganhar, aonde quer chegar?? Elas assolavam meu ego, a negativa não saia de minha mente, de meu ser... Nada! Nada! Nada! E... Não sei, não sei, não sei... O odioso não saber, que paralisa muitos e assusta outros tantos que chegam nessa passagem. Lembrei-me de Atreiú (História sem fim) quando tenta passar pelas esfinges - "somente aquele com o coração sincero consegue passar..." e qualquer dúvida sobre sua coragem, seu ser, pode impedí-lo de passar, e seu caminho ter um fim não desejado.*

Comecei a buscar um lugar para parar um pouco e tomar um bom e forte café, pois percebi que o passeio daquele dia iria durar um pouco mais do que de costume. Não conhecia a estrada, levei quase meia hora para encontrar um lugar aberto, claro, sempre faço essas viagens a noite, é como uma proteção. O estacionamento estava praticamente vazio, podia chegar a algumas conclusões: ninguém mais com insônia ou o café seria uma droga. Bem, não tinha escolha, parei ali mesmo. Pedi o café, e voltei ao carro devagar, notei alguém sentado perto, na guia. Entrei no carro, mas minha atenção voltou-se para a figura parada próximo ao carro, era um velho, ou alguém que aparentava ser velho, e brincava com um isqueiro. Não fechei a porta, virei-me em sua direção, e ofereci o café, que foi recusado rapidamente. Iria deixá-lo ali, o que me importava, tinha outras coisas a buscar, refletir, que diferença faria??

- A diferença está em como encaramos tudo... a vida, os problemas, as pessoas...

- O que? O Senhor está falando comigo?!?!?!?

- Tem mais alguém aqui?

Ok. Entendi. Agora mendigos leem pensamentos, e respondem as grandes dúvidas da humanidade, ou sei lá, simplesmente do meu insignificante ser...

- Insignificante é a maneira como Você decidiu se enxergar!

- Ok. E posso saber quem é você ?

- Isso não importa agora, importa quem é Você! Não importa nem a maneira como me vê, mas atente ao fato que posso ser apenas um espelho... Eu sou o que sou, e Você, é o que é? O Tempo não pode ser recuperado, então, por que perdê-lo buscando o que já encontrou? Todas as perguntas, tornam-se respostas um dia, mas quando viram respostas, as perguntas mudaram e a isso chamamos ciclo. E o ciclo nunca pára, não importa onde você esteja. O problema, não são as perguntas, mas o que Você faz com as respostas.

Entrei no carro, havia encontrado respostas demais para uma viagem só, olhei pelo retrovisor, e como já esperava, o velho não estava lá. Até a próxima, pois agora, estou indo pra casa. Quem sabe fazer mais perguntas...


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* "...a Porta do Grande Enigma..., ...as duas esfinges. Essa porta está sempre aberta... O que é lógico. Não tem batentes. Apesar disso, ninguém pode passar para o outro lado, a menos que..., as esfinges fechem os olhos. E sabe por quê? Porque o olhar de uma esfinge é totalmente diferente do olhar de qualquer outro ser. Nós e todos os outros seres olhamos para alguma coisa. Vemos o mundo. Mas uma esfinge não vê nada: em certo sentido, é cega. Em contrapartida, seus olhos transmitem algo. E o que seu olhar transmite? Todos os enigmas do mundo. Por isso, as duas esfinges estão sempre a olhar uma para a outra. Porque só uma esfinge pode suportar o olhar de outra esfinge. E agora imagine o que será de uma pessoa que se atreva a interferir na troca de olhares entre ambas! Fica ali, petrificada, e não poderá mover-se antes de ter decifrado todos os enigmas do mundo."
(História Sem Fim, de Michael Ende)

segunda-feira, 21 de abril de 2008

Em 15 de março de 2007

Siga a trilha, disse o velho homem, e assim o fiz, trilhei por muito tempo, apenas querendo chegar ao fim, o velho havia dito que ao final do caminho eu encontraria algo grandioso, sublime, mas até então, não sabia aonde estava ou se faltava muito. Já estava a ponto de desistir, parar com toda essa loucura, já que não fazia mais sentido minha busca, pois já não sabia mais o que buscava, queria desistir, sentia me derrotado, triste, enfim, eu não teria a satisfação dos que chegam, a felicidade dos que encontram, o júbilo dos que vencem...

Estava assim, quando ele me encontrou...

Corpo de criança, vitalidade de um jovem e sabedoria de um ancião, assim o era. E foi nesse momento que acordei...

Conversamos por horas, nunca havia levado "sermão" duma criança, nunca chorei tanto, pois cai em mim, percebi o quanto havia perdido e o quanto estava perdendo, ele me resgatou, disse que ainda me restava uma chance. Ainda ecoam em mim suas últimas palavras "a busca NUNCA acaba..."

Voltei a trilha, mas não mais tinha a mesma visão, aprendi que a busca era contante e que a todo momento poderia encontrar e descobrir coisas. Reparei na vida que nela havia, percebi os pequenos milagres, as providências, tinha sempre tudo o que precisava, o longo caminho sobre essa nova perspectiva tornava-se mais prazeroso. Mesmo as pedras, espinhos, tempestades tinham um novo aspecto. Apareciam como um desafio a ser superado. Cada vitória era muito bem vinda. Foi por causa dele, na figura de uma criança que aprendi. O momento mais importante de qualquer caminho, é sempre o momento presente, na ansiedade de logo chegar, estava perdendo o mais importante: o agora.

Nesse momento, não mais me importando com o fim, e sim com o meio, cheguei aonde queria. E já maravilhado com o TODO o caminho, não podia acreditar que algo pudesse me trazer satisfação maior.

Mergulhei, no mais profundo de meu ser e assim, vi, que o velho homem sabia o que estava dizendo, fiquei sem palavras, fui levado para longe, o fim da trilha tinha tornado-se imenso. Num instante me vi mergulhado no Universo, tão imenso, vi a Terra ao longe, conheci a grandiosidade do Universo, suas constelações, galáxias, nebulosas, não vi o fim, não via o meio nem o início.

Comecei a voltar, e vi minha tão estimada via Láctea, como uma nuvem rosa e verde. Adentrei sem medo, sabia o que queria, sabia que tinha encontrado, meu coração bateu mais forte, sabia que podia TUDO, que tinha tudo, que o Universo estava em mim. Vi o que chamo de meu mundo, a Terra, senti muito carinho nesse momento e foi como se pudesse carregá-la no colo e cuidar como uma criança, o mundo estava em minhas mãos, pude sentir seu calor, sua dor, suas alegrias e suas tristezas. Até que ouvi, uma voz doce, não era possível, tão doce quanto a voz de minha mãe, Gaia chamava por mim, pedia por minha presença, senti que o mundo também estava em mim, e vi o quanto precisava dele também, havia uma troca. Atendi ao chamado e desci, já não mais temia nada, o Universo me apoiava e tinha o mundo não só em minhas mãos, mas também e meu coração...
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