sábado, 2 de abril de 2011
O dragão branco
Caminhava pela areia, sentia o cheiro do mar cada vez mais próximo, e antes que pudesse vê-lo, percebi uma velha senhora caminhando em minha direção. Não vi de onde vinha e nem questionei, apenas retribui o sorriso, enquanto me acenava para que a seguisse. Ela começou a caminhar na direção do mar...
Já conseguia ver o mar quando me pediu que sentasse, e assim o fiz, ela me esperou, para poder sentar-se a minha frente, continuava sorrindo. Parecia feliz mas nada falava. Ela sinalizou para que eu olhasse o mar, e percebi então que não ouviria sua voz.
As águas estavam agitadas, e ondas quebravam a todo momento, não sabia o que precisava enxergar, quando comecei a ouvir uma voz... Olhei para a senhora ao meu lado, muda e sorridente, não era ela, e a voz voltou apenas dizendo "não tente entender, apenas observe e escute". As ondas pareciam lutar contra um inimigo invisível, tamanha sua violencia, cheguei a sentir medo, quando vi sua furia se aproximando, mas nada, nem um respingo chegava até nós.
A altura das ondas e sua imponencia assustavam, ficavam mais altas, paravam, e quebravam, e foi num desses instantes, enquanto uma onda formava-se e crescia sem parar, que voltei a ouvir a voz... sentia que era a velha falando, mesmo sem voz, ela simplesmente dizia, "observe o dragão branco, ele está voltando...". Enquanto isso eu olhava o mar, e apenas via o mar, revolto em suas grandes ondas, quebrando com força contra o inimigo invisível...
Curiosidades:
- Dragão branco
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quarta-feira, 23 de março de 2011
Encontro com Saturno
Estava na estrada, num desses momentos em que dirigia apenas pelo prazer, sem rumo certo, apenas para reflexão... A constante na estrada costuma trazer conclusões rápidas, onde um devaneio não pode durar mais de dois segundos. Com a atenção dobrada, é fácil esvaziar a mente, e conseguir concentrar-se para o que realmente importa.
Não foi diferente nesse dia, havia entrado em conflito após fazer algumas contas, quando resolvi refletir o por que desse 'balanço' nunca equilibrar-se. Tudo estava confuso, de repente ouvia vozes fazendo perguntas e mais perguntas, cujas respostas eu sabia, mas tinha vergonha de pronunciá-las: o que você fez, o que você tem, o que você é, o que pretende mudar, o que pretender ganhar, aonde quer chegar?? Elas assolavam meu ego, a negativa não saia de minha mente, de meu ser... Nada! Nada! Nada! E... Não sei, não sei, não sei... O odioso não saber, que paralisa muitos e assusta outros tantos que chegam nessa passagem. Lembrei-me de Atreiú (História sem fim) quando tenta passar pelas esfinges - "somente aquele com o coração sincero consegue passar..." e qualquer dúvida sobre sua coragem, seu ser, pode impedí-lo de passar, e seu caminho ter um fim não desejado.*
Comecei a buscar um lugar para parar um pouco e tomar um bom e forte café, pois percebi que o passeio daquele dia iria durar um pouco mais do que de costume. Não conhecia a estrada, levei quase meia hora para encontrar um lugar aberto, claro, sempre faço essas viagens a noite, é como uma proteção. O estacionamento estava praticamente vazio, podia chegar a algumas conclusões: ninguém mais com insônia ou o café seria uma droga. Bem, não tinha escolha, parei ali mesmo. Pedi o café, e voltei ao carro devagar, notei alguém sentado perto, na guia. Entrei no carro, mas minha atenção voltou-se para a figura parada próximo ao carro, era um velho, ou alguém que aparentava ser velho, e brincava com um isqueiro. Não fechei a porta, virei-me em sua direção, e ofereci o café, que foi recusado rapidamente. Iria deixá-lo ali, o que me importava, tinha outras coisas a buscar, refletir, que diferença faria??
- A diferença está em como encaramos tudo... a vida, os problemas, as pessoas...
- O que? O Senhor está falando comigo?!?!?!?
- Tem mais alguém aqui?
Ok. Entendi. Agora mendigos leem pensamentos, e respondem as grandes dúvidas da humanidade, ou sei lá, simplesmente do meu insignificante ser...
- Insignificante é a maneira como Você decidiu se enxergar!
- Ok. E posso saber quem é você ?
- Isso não importa agora, importa quem é Você! Não importa nem a maneira como me vê, mas atente ao fato que posso ser apenas um espelho... Eu sou o que sou, e Você, é o que é? O Tempo não pode ser recuperado, então, por que perdê-lo buscando o que já encontrou? Todas as perguntas, tornam-se respostas um dia, mas quando viram respostas, as perguntas mudaram e a isso chamamos ciclo. E o ciclo nunca pára, não importa onde você esteja. O problema, não são as perguntas, mas o que Você faz com as respostas.
Entrei no carro, havia encontrado respostas demais para uma viagem só, olhei pelo retrovisor, e como já esperava, o velho não estava lá. Até a próxima, pois agora, estou indo pra casa. Quem sabe fazer mais perguntas...
----
* "...a Porta do Grande Enigma..., ...as duas esfinges. Essa porta está sempre aberta... O que é lógico. Não tem batentes. Apesar disso, ninguém pode passar para o outro lado, a menos que..., as esfinges fechem os olhos. E sabe por quê? Porque o olhar de uma esfinge é totalmente diferente do olhar de qualquer outro ser. Nós e todos os outros seres olhamos para alguma coisa. Vemos o mundo. Mas uma esfinge não vê nada: em certo sentido, é cega. Em contrapartida, seus olhos transmitem algo. E o que seu olhar transmite? Todos os enigmas do mundo. Por isso, as duas esfinges estão sempre a olhar uma para a outra. Porque só uma esfinge pode suportar o olhar de outra esfinge. E agora imagine o que será de uma pessoa que se atreva a interferir na troca de olhares entre ambas! Fica ali, petrificada, e não poderá mover-se antes de ter decifrado todos os enigmas do mundo."
(História Sem Fim, de Michael Ende)
Não foi diferente nesse dia, havia entrado em conflito após fazer algumas contas, quando resolvi refletir o por que desse 'balanço' nunca equilibrar-se. Tudo estava confuso, de repente ouvia vozes fazendo perguntas e mais perguntas, cujas respostas eu sabia, mas tinha vergonha de pronunciá-las: o que você fez, o que você tem, o que você é, o que pretende mudar, o que pretender ganhar, aonde quer chegar?? Elas assolavam meu ego, a negativa não saia de minha mente, de meu ser... Nada! Nada! Nada! E... Não sei, não sei, não sei... O odioso não saber, que paralisa muitos e assusta outros tantos que chegam nessa passagem. Lembrei-me de Atreiú (História sem fim) quando tenta passar pelas esfinges - "somente aquele com o coração sincero consegue passar..." e qualquer dúvida sobre sua coragem, seu ser, pode impedí-lo de passar, e seu caminho ter um fim não desejado.*
Comecei a buscar um lugar para parar um pouco e tomar um bom e forte café, pois percebi que o passeio daquele dia iria durar um pouco mais do que de costume. Não conhecia a estrada, levei quase meia hora para encontrar um lugar aberto, claro, sempre faço essas viagens a noite, é como uma proteção. O estacionamento estava praticamente vazio, podia chegar a algumas conclusões: ninguém mais com insônia ou o café seria uma droga. Bem, não tinha escolha, parei ali mesmo. Pedi o café, e voltei ao carro devagar, notei alguém sentado perto, na guia. Entrei no carro, mas minha atenção voltou-se para a figura parada próximo ao carro, era um velho, ou alguém que aparentava ser velho, e brincava com um isqueiro. Não fechei a porta, virei-me em sua direção, e ofereci o café, que foi recusado rapidamente. Iria deixá-lo ali, o que me importava, tinha outras coisas a buscar, refletir, que diferença faria??
- A diferença está em como encaramos tudo... a vida, os problemas, as pessoas...
- O que? O Senhor está falando comigo?!?!?!?
- Tem mais alguém aqui?
Ok. Entendi. Agora mendigos leem pensamentos, e respondem as grandes dúvidas da humanidade, ou sei lá, simplesmente do meu insignificante ser...
- Insignificante é a maneira como Você decidiu se enxergar!
- Ok. E posso saber quem é você ?
- Isso não importa agora, importa quem é Você! Não importa nem a maneira como me vê, mas atente ao fato que posso ser apenas um espelho... Eu sou o que sou, e Você, é o que é? O Tempo não pode ser recuperado, então, por que perdê-lo buscando o que já encontrou? Todas as perguntas, tornam-se respostas um dia, mas quando viram respostas, as perguntas mudaram e a isso chamamos ciclo. E o ciclo nunca pára, não importa onde você esteja. O problema, não são as perguntas, mas o que Você faz com as respostas.
Entrei no carro, havia encontrado respostas demais para uma viagem só, olhei pelo retrovisor, e como já esperava, o velho não estava lá. Até a próxima, pois agora, estou indo pra casa. Quem sabe fazer mais perguntas...
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* "...a Porta do Grande Enigma..., ...as duas esfinges. Essa porta está sempre aberta... O que é lógico. Não tem batentes. Apesar disso, ninguém pode passar para o outro lado, a menos que..., as esfinges fechem os olhos. E sabe por quê? Porque o olhar de uma esfinge é totalmente diferente do olhar de qualquer outro ser. Nós e todos os outros seres olhamos para alguma coisa. Vemos o mundo. Mas uma esfinge não vê nada: em certo sentido, é cega. Em contrapartida, seus olhos transmitem algo. E o que seu olhar transmite? Todos os enigmas do mundo. Por isso, as duas esfinges estão sempre a olhar uma para a outra. Porque só uma esfinge pode suportar o olhar de outra esfinge. E agora imagine o que será de uma pessoa que se atreva a interferir na troca de olhares entre ambas! Fica ali, petrificada, e não poderá mover-se antes de ter decifrado todos os enigmas do mundo."
(História Sem Fim, de Michael Ende)
terça-feira, 1 de março de 2011
Ajuda silenciosa
A garotinha estava sentada no meio fio, chorava copiosamente quando lhe perguntei o que havia acontecido para tanta tristeza. Aos soluços, ela me explica que havia derrubado o leite, e o pote havia se quebrado e não tinha outro para substituir, - ela carregava o leite em um pote de vidro, sua capacidade devia ser maior que 1 litro - e diante disso, estava com medo de voltar para casa, preferia ficar ali, chorando e chorando.
Não sabia como ajudá-la, pensei, e tentei arrumar uma solução, nenhuma de minhas sugestões foram aceitas, tal como "o que acha que explicar para sua mamãe que foi sem querer?", e "se você disser que paga o próximo?". Nada surtia efeito, era praticamente impossível plantar um sorriso naquele pequeno rosto. Resolvi deixá-la, não sabia exatamente o que fazer, mas ali, nada conseguiria.
Continuei a caminhar na rua de paralelepípedos, mesmo depois de muito andar, ainda ouvia os soluços da garotinha. Eu não sabia para onde estava indo, mas parei em frente ao que seria a possível solução: a mercearia. O dono estava lendo um jornal distraídamente ao fundo do balcão, o rapaz que o ajudava ia de um lado para o outro atendendo desde crianças assustadas a senhoras apressadas. Estava difícil de chamar a atenção de alguém naquele lugar, mas tive uma idéia!
O dono parecia uma boa pessoa, mas estava por demais entretido em seu jornal, assim desisti dele, ao menos, por enquanto. Olhando melhor, notei uma jovem senhora a um canto, esperando tranquilamente por sua vez, seus olhos doces chamaram minha atenção, assim a escolhi para ajudar a garotinha triste. Esperei que ela fizesse o pedido, e sussurrei lhe que poderia comprar um pote a mais de leite, para o caso de uma eventualidade, como fazer seus famosos pãezinhos para uma visita inesperada... Para minha surpresa, rapidamente ela atendeu meu sussurro, e dobrou a quantidade de leite, farinha, fermento. Fiquei feliz, havia conseguido uma parte, agora precisava mudar seu caminho, o que não era difícil, já que a garotinha estava a alguns quarteirões da avenida principal, e como chorava alto, difícil não chamar atenção. De qualquer forma, acompanhei-a, para não haver enganos, seus ouvidos atentos logo se alarmaram e procuravam a origem do choro, sem influência alguma, ela encontrou a garotinha. Fiquei feliz por ter escolhido a pessoa certa.
A jovem ajoelhou-se aos pés da menina, e perguntou-lhe o que havia acontecido. A garotinha olhou para mim, e falou "você não precisava ter trazido sua mãe!!" - enquanto isso, a jovem a encarava com olhar duvidoso, e insistia em saber o que havia acontecido.
- "Por que você não contou pra ela? Eu derrubei o leite e não posso voltar assim para casa!"
E voltou a chorar e encolher-se, aliás, suas lágrimas praticamente não existiam mais, de tanto que já chorara. A jovem, com um pouco de dificuldades, entendeu, e ofereceu um de seus potes a garotinha, que recusou, e disse que seria pior chegasse em casa com um pote diferente. A moça insistiu, explicou, disse que a acompanharia, mas nada colocava um sorriso naquele rosto. Assim, sugeri que deixa-se ali o pote e partisse, e ela assim o fez.
Quando a jovem levantou-se, e continuou seu caminho, deixando um pote para trás, a garotinha parou um pouco, e entre soluços e perguntou-me:
- Você não vai com sua mãe?
- Eu já estou com ela... :-)
Não sabia como ajudá-la, pensei, e tentei arrumar uma solução, nenhuma de minhas sugestões foram aceitas, tal como "o que acha que explicar para sua mamãe que foi sem querer?", e "se você disser que paga o próximo?". Nada surtia efeito, era praticamente impossível plantar um sorriso naquele pequeno rosto. Resolvi deixá-la, não sabia exatamente o que fazer, mas ali, nada conseguiria.
Continuei a caminhar na rua de paralelepípedos, mesmo depois de muito andar, ainda ouvia os soluços da garotinha. Eu não sabia para onde estava indo, mas parei em frente ao que seria a possível solução: a mercearia. O dono estava lendo um jornal distraídamente ao fundo do balcão, o rapaz que o ajudava ia de um lado para o outro atendendo desde crianças assustadas a senhoras apressadas. Estava difícil de chamar a atenção de alguém naquele lugar, mas tive uma idéia!
O dono parecia uma boa pessoa, mas estava por demais entretido em seu jornal, assim desisti dele, ao menos, por enquanto. Olhando melhor, notei uma jovem senhora a um canto, esperando tranquilamente por sua vez, seus olhos doces chamaram minha atenção, assim a escolhi para ajudar a garotinha triste. Esperei que ela fizesse o pedido, e sussurrei lhe que poderia comprar um pote a mais de leite, para o caso de uma eventualidade, como fazer seus famosos pãezinhos para uma visita inesperada... Para minha surpresa, rapidamente ela atendeu meu sussurro, e dobrou a quantidade de leite, farinha, fermento. Fiquei feliz, havia conseguido uma parte, agora precisava mudar seu caminho, o que não era difícil, já que a garotinha estava a alguns quarteirões da avenida principal, e como chorava alto, difícil não chamar atenção. De qualquer forma, acompanhei-a, para não haver enganos, seus ouvidos atentos logo se alarmaram e procuravam a origem do choro, sem influência alguma, ela encontrou a garotinha. Fiquei feliz por ter escolhido a pessoa certa.
A jovem ajoelhou-se aos pés da menina, e perguntou-lhe o que havia acontecido. A garotinha olhou para mim, e falou "você não precisava ter trazido sua mãe!!" - enquanto isso, a jovem a encarava com olhar duvidoso, e insistia em saber o que havia acontecido.
- "Por que você não contou pra ela? Eu derrubei o leite e não posso voltar assim para casa!"
E voltou a chorar e encolher-se, aliás, suas lágrimas praticamente não existiam mais, de tanto que já chorara. A jovem, com um pouco de dificuldades, entendeu, e ofereceu um de seus potes a garotinha, que recusou, e disse que seria pior chegasse em casa com um pote diferente. A moça insistiu, explicou, disse que a acompanharia, mas nada colocava um sorriso naquele rosto. Assim, sugeri que deixa-se ali o pote e partisse, e ela assim o fez.
Quando a jovem levantou-se, e continuou seu caminho, deixando um pote para trás, a garotinha parou um pouco, e entre soluços e perguntou-me:
- Você não vai com sua mãe?
- Eu já estou com ela... :-)
terça-feira, 8 de fevereiro de 2011
A casa das recordações
Seguia por uma rua, minhas lembranças apontavam para um lugar na infancia, mas o lugar não se parecia com a lembrança. A cada esquina, buscava por sinais de familiaridade, mas via apenas prédios comerciais, ou condomínios luxuosos, cheios de segurança e praticamente impossíveis de se espiar. Continuava andando, e comecei a ver algumas pessoas conhecidas, mas para meu terror, elas não me reconheciam. Procurei por um espelho, queria saber se eu estava tão diferente, mas não o encontrei, busquei pelo meu reflexo nas vitrines, sem sucesso... Como eu podia lembrar das pessoas e não ser recíproco? Abordei algumas pessoas, mas todas olhavam com estranheza e continuavam seus afazeres.
Corri em busca de uma resposta, e tudo que encontrei, foi um lugar vazio, uma natureza morta e humanos sem viço, olhares frios, parados, olhando para lugar algum, tive dúvidas se podiam enxergar ou mesmo ouvir. Eu sabia que precisava chegar a um casebre que vi ao longe, algo me dizia que encontraria ali o que tanto buscava. O sol dividia o céu com a lua, estava em um momento entre o dia e a noite, segui adiante, afastando-me da cidade de lembranças esquecidas. A estrada era de terra batida, como se muitos carros por ali passassem, sua proximidade com a cidade gerava um grande contraste, mas tudo que fiz foi andar.
Quando cheguei ao casebre, ele não parecia tão pequeno, foi como se houvesse crescido no caminho, ficou majestoso e minha curiosidade misturava-se a angustia. O que quer que encontrasse ali, esclareceria todo o mistério da cidade. Bati a porta, e meu toque parecia ecoar no vazio. Insisti, bati mais e mais, cada vez com mais força, quando ouvi passos do outro lado. Sim!! Alguém estava vindo!! Ouvi vários trincos e fechaduras serem destrancados, e a porta se abre num rangido fúnebre. Espero ansiosa pelo rosto do anfitrião, mas, para minha surpresa, não há ninguém. Entrei, mesmo sem convite, chamei sem resposta, estava em uma sala cujas paredes estavam abarrotadas de retratos de paisagens, casas, pessoas, animais. Segui para a próxima sala, e a mesma estava coberta de manuscritos colados as paredes, e muitos livros em prateleiras, na mesa, no chão, nas poltronas. Olhei rapidamente em cima da mesa, peguei uma carta, mas não a li, e segui para a próxima sala, e para minha surpresa ali havia apenas um enorme baú. Abri facilmente, e dentro dele encontrei dois arcanos: o hierofante e os enamorados.
Corri em busca de uma resposta, e tudo que encontrei, foi um lugar vazio, uma natureza morta e humanos sem viço, olhares frios, parados, olhando para lugar algum, tive dúvidas se podiam enxergar ou mesmo ouvir. Eu sabia que precisava chegar a um casebre que vi ao longe, algo me dizia que encontraria ali o que tanto buscava. O sol dividia o céu com a lua, estava em um momento entre o dia e a noite, segui adiante, afastando-me da cidade de lembranças esquecidas. A estrada era de terra batida, como se muitos carros por ali passassem, sua proximidade com a cidade gerava um grande contraste, mas tudo que fiz foi andar.
Quando cheguei ao casebre, ele não parecia tão pequeno, foi como se houvesse crescido no caminho, ficou majestoso e minha curiosidade misturava-se a angustia. O que quer que encontrasse ali, esclareceria todo o mistério da cidade. Bati a porta, e meu toque parecia ecoar no vazio. Insisti, bati mais e mais, cada vez com mais força, quando ouvi passos do outro lado. Sim!! Alguém estava vindo!! Ouvi vários trincos e fechaduras serem destrancados, e a porta se abre num rangido fúnebre. Espero ansiosa pelo rosto do anfitrião, mas, para minha surpresa, não há ninguém. Entrei, mesmo sem convite, chamei sem resposta, estava em uma sala cujas paredes estavam abarrotadas de retratos de paisagens, casas, pessoas, animais. Segui para a próxima sala, e a mesma estava coberta de manuscritos colados as paredes, e muitos livros em prateleiras, na mesa, no chão, nas poltronas. Olhei rapidamente em cima da mesa, peguei uma carta, mas não a li, e segui para a próxima sala, e para minha surpresa ali havia apenas um enorme baú. Abri facilmente, e dentro dele encontrei dois arcanos: o hierofante e os enamorados.
sábado, 5 de fevereiro de 2011
A maçã
Era uma vez um pequeno ser, não tinha corpo, era apenas uma aura luminosa, cujo tempo de voltar a Terra havia esgotado-se, mas ainda não havia conseguido.
Desde então morava ao lado daquela que seria sua geradora, sua força, caminhando noite e dia como uma fiel guardiã, esperando uma oportunidade para ser parte de sua protegida. Tentava de tudo para aproximar-se mais e concluir seu intento, e quanto mais tentava, mais enfraquecia, estava prestes a desanimar, não conseguia entender por que tantas muralhas começaram a crescer em seu caminho, não conseguia mais transpor ou mesmo chegar perto, começou a extinguir-se e perder-se. Pensou em desistir.
Um dia porém, teve uma oportunidade única, conseguiu atravessar um portal, não sabia aonde chegaria, imaginou uma nova chance, arriscou-se, e através da passagem conseguiu chegar aos sonhos de sua mãe! Ela estava parada, sentada embaixo de uma macieira, um livro em mãos, tinha os cabelos longos, e um ar tranquilo. Aquela era sua oportunidade, mas ainda não sabia ao certo o que poderia fazer. Precisava chamar a atenção de sua mãe, mas precisava ser prudente, não podia assustá-la, teria que chegar de mansinho, e deixar um recado.
Chegou mais perto, pisando em algumas folhas secas, e pequenos galhos no chão, seus passos fizeram com que sua mãe parasse a leitura, e levantasse o olhar, procurando em volta, até que parou olhando fixamente em sua direção. Sua mente parecia um turbilhão, suas emoções pareciam não ter controle, rapidamente mostrou-se como uma criança, uma menina, de uns 2 anos, de cabelos longos e pretos, e olhos enormes, que conseguiu apenas expressar um sorriso. O livro fora fechado, a atenção voltada para si, uma maçã caíra, mas continuaram se encarando, ela sabia, simplesmente sabia, nada havia sido dito, mas em seus olhos, lágrimas brotaram. Ela meneou a cabeça em negativa, era difícil entender aquele gesto, por quê?? Qual o sentido, qual sua razão? O que havia feito? Tínhamos um acordo não se lembra ? Ela tampou o rosto com as mãos para esconder as lágrimas, não queria mais encará-la, queria fugir, mas não se levantava. Como criança, conseguira chegar mais perto, abaixou-se, pegou a maçã, e a entregou a sua mãe, ela não queria aceitar, suas lágrimas não paravam, então, com um peso em seu peito, deixou a maçã em cima do livro, deu-lhe um beijo, e caminhou de volta ao portal, antes de entrar, deu um beijo em sua palma e o soprou para sua mãe, que a encarava ao longe.
O recado estava dado.
Desde então morava ao lado daquela que seria sua geradora, sua força, caminhando noite e dia como uma fiel guardiã, esperando uma oportunidade para ser parte de sua protegida. Tentava de tudo para aproximar-se mais e concluir seu intento, e quanto mais tentava, mais enfraquecia, estava prestes a desanimar, não conseguia entender por que tantas muralhas começaram a crescer em seu caminho, não conseguia mais transpor ou mesmo chegar perto, começou a extinguir-se e perder-se. Pensou em desistir.
Um dia porém, teve uma oportunidade única, conseguiu atravessar um portal, não sabia aonde chegaria, imaginou uma nova chance, arriscou-se, e através da passagem conseguiu chegar aos sonhos de sua mãe! Ela estava parada, sentada embaixo de uma macieira, um livro em mãos, tinha os cabelos longos, e um ar tranquilo. Aquela era sua oportunidade, mas ainda não sabia ao certo o que poderia fazer. Precisava chamar a atenção de sua mãe, mas precisava ser prudente, não podia assustá-la, teria que chegar de mansinho, e deixar um recado.
Chegou mais perto, pisando em algumas folhas secas, e pequenos galhos no chão, seus passos fizeram com que sua mãe parasse a leitura, e levantasse o olhar, procurando em volta, até que parou olhando fixamente em sua direção. Sua mente parecia um turbilhão, suas emoções pareciam não ter controle, rapidamente mostrou-se como uma criança, uma menina, de uns 2 anos, de cabelos longos e pretos, e olhos enormes, que conseguiu apenas expressar um sorriso. O livro fora fechado, a atenção voltada para si, uma maçã caíra, mas continuaram se encarando, ela sabia, simplesmente sabia, nada havia sido dito, mas em seus olhos, lágrimas brotaram. Ela meneou a cabeça em negativa, era difícil entender aquele gesto, por quê?? Qual o sentido, qual sua razão? O que havia feito? Tínhamos um acordo não se lembra ? Ela tampou o rosto com as mãos para esconder as lágrimas, não queria mais encará-la, queria fugir, mas não se levantava. Como criança, conseguira chegar mais perto, abaixou-se, pegou a maçã, e a entregou a sua mãe, ela não queria aceitar, suas lágrimas não paravam, então, com um peso em seu peito, deixou a maçã em cima do livro, deu-lhe um beijo, e caminhou de volta ao portal, antes de entrar, deu um beijo em sua palma e o soprou para sua mãe, que a encarava ao longe.
O recado estava dado.
quarta-feira, 26 de janeiro de 2011
Lembranças
Acordei numa ala hospitalar, estranhei o local, algumas pessoas ficaram surpresas por eu ter acordado, isso me incomodou um pouco, comecei a caminhar, deixaram me sair, mas teria que voltar. Fui buscar a origem de estar ali, me sentia bem.
Cheguei a um prédio velho, sabia que era ali que trabalhava, e pensava em trabalhar não fosse a destruição que assolava o lugar. Conforme subia suas escadas, apenas ruínas e destruição. Encontrei minha sala, e nada via a não ser escombros. Entregaram me uma sacola com coisas e objetos que ainda estavam identificáveis, levei os comigo, mas não conseguia entender o que havia acontecido.
Quando mencionei minha dúvida, muitos dos que me acompanhavam demonstraram espanto, indagando "mas você não se recorda de nada? Nem uma mísera lembrança?" Bem, apenas lembrava de trabalhar naquele prédio e depois de ter acordado no hospital... Comecei a vasculhar o que restara da sala, e apenas me lembrava de como era, como chegava ali, das pessoas que ali ficavam.
Abri a sacola de meus pertences que haviam restado e nela encontrei uma folha de jornal, com fotos do prédio, antes e depois. Ahn? Depois do que? Li rapidamente, e algo como uma explosão havia deixado o lugar assim, e como não existiam lembranças? Descobri que as pessoas que me acompanhavam eram do hospital, e sua surpresa em eu não lembrar era porque fui resgatada consciente e falando. Bem, isso é bom não é? Eu não senti dor, nem medo, tal como em minha infância, quando tive convulsões e via meu corpo por outro angulo e ouvia me chamarem, meu corpo sofria, mas não minha consciência, isso não é bom?
Eu queria entender a origem da explosão, enquanto insistiam em me contar o que havia acontecido comigo: havia dormido por um mês e tive recuperação rápida, outros, nem tanto. Enquanto esclareciam me e tentavam resgatar minhas lembranças, voltamos ao hospital, ao longo corredor que levava me a conhecida ala, muitas pessoas por ali transitavam... todos sempre acompanhados, tudo parecia tão distante, tão surreal, não via rostos conhecidos, sem lembranças, sem passado, o cálice vazio, pronto a encher se novamente, e sempre, sempre....
Cheguei a um prédio velho, sabia que era ali que trabalhava, e pensava em trabalhar não fosse a destruição que assolava o lugar. Conforme subia suas escadas, apenas ruínas e destruição. Encontrei minha sala, e nada via a não ser escombros. Entregaram me uma sacola com coisas e objetos que ainda estavam identificáveis, levei os comigo, mas não conseguia entender o que havia acontecido.
Quando mencionei minha dúvida, muitos dos que me acompanhavam demonstraram espanto, indagando "mas você não se recorda de nada? Nem uma mísera lembrança?" Bem, apenas lembrava de trabalhar naquele prédio e depois de ter acordado no hospital... Comecei a vasculhar o que restara da sala, e apenas me lembrava de como era, como chegava ali, das pessoas que ali ficavam.
Abri a sacola de meus pertences que haviam restado e nela encontrei uma folha de jornal, com fotos do prédio, antes e depois. Ahn? Depois do que? Li rapidamente, e algo como uma explosão havia deixado o lugar assim, e como não existiam lembranças? Descobri que as pessoas que me acompanhavam eram do hospital, e sua surpresa em eu não lembrar era porque fui resgatada consciente e falando. Bem, isso é bom não é? Eu não senti dor, nem medo, tal como em minha infância, quando tive convulsões e via meu corpo por outro angulo e ouvia me chamarem, meu corpo sofria, mas não minha consciência, isso não é bom?
Eu queria entender a origem da explosão, enquanto insistiam em me contar o que havia acontecido comigo: havia dormido por um mês e tive recuperação rápida, outros, nem tanto. Enquanto esclareciam me e tentavam resgatar minhas lembranças, voltamos ao hospital, ao longo corredor que levava me a conhecida ala, muitas pessoas por ali transitavam... todos sempre acompanhados, tudo parecia tão distante, tão surreal, não via rostos conhecidos, sem lembranças, sem passado, o cálice vazio, pronto a encher se novamente, e sempre, sempre....
quarta-feira, 19 de janeiro de 2011
O lago escuro
Encontrei um lago de águas escuras e calmas, passava uma tranquilidade tão imensa quanto seu próprio tamanho, resolvi quebrar seu silêncio, abaixei-me e comecei a atirar pequenas pedras, que em seu leito se encontravam. Pequenas ondas começaram a formar-se e batiam-se uma com as outras... parei para observar, quando percebi que ondas continuavam a brotar mesmo sem pedrinhas. Intrigada, dei a volta para poder ver melhor o que acontecia, debrucei me na margem, mas nada via, a não ser suas águas escuras tremulando, mas, numa questão de segundos, a margem ao qual me debruçara, começa a desfazer-se, e como uma pedra caio no lago.
Como uma pedra afundei, e tal qual seu tamanho, era a sua profundidade, parecia afundar sem fim. Era apenas como se caísse. Não sufocava. Não tentava subir. Apenas descia, sem pensar, sem sentir...
Meus pés tocaram algo. Enfim, minha descida terminou. Meus olhos, nada conseguiam ver, meu único sentido era o tato, conseguia perceber o tremular das águas, algo se aproximava de mim, não tinha medo, mas não conseguir ver me angustiava. Fui arrastada, sentia areia em meus pés, e comecei a ver ao longe uma névoa, mas não seguiamos para lá, estava apenas de passagem, observar, sentir, nada além. Consigo ver uma silueta, parece um ser humanoide, sem face definida, seus olhos pareciam apenas sombras, seus braços apontam uma direção, percebo que terei que seguir sem sua companhia. Continuo como que flutuando, e chego a uma colonia, uma cidade branca cresce conforme me aproximo, sua ruas tornam-se nitidas, a luz do lugar consegue me envolver, e volto a enxergar todos os detalhes, não vejo seu habitantes, mas sinto suas presenças a me observarem das janelas, as casas são simples e charmosas, tudo branco. No chão, vejo algumas conchas, pego algumas, e vejo que todas possuem uma inscrição, mas não sei identificá-las, guardo, e continuo a procurar algo pela cidade.
Sigo em direção centro, e conforme me aproximo, sinto que estou perto de minha busca, vejo alguns seres, mas se afastam com minha presença. Abrem caminho para que eupasse, sinto que o que está ali, é para mim. Quando vejo, em um pedestal, uma linda pedra azul, a única cor que vi ali. Pego a pedra e a guardo. Nesse momento, toda a tranquilidade vai embora, os seres passam como que em fuga, e eu sinto uma imensa vontade de respirar, lembro-me da descida, o quão longa foi, e tudo começa a ficar confuso, rodar, quero respirar, preciso respirar, preciso de AR, chega de água, e um zumbido toma conta de mim...
Como uma pedra afundei, e tal qual seu tamanho, era a sua profundidade, parecia afundar sem fim. Era apenas como se caísse. Não sufocava. Não tentava subir. Apenas descia, sem pensar, sem sentir...
Meus pés tocaram algo. Enfim, minha descida terminou. Meus olhos, nada conseguiam ver, meu único sentido era o tato, conseguia perceber o tremular das águas, algo se aproximava de mim, não tinha medo, mas não conseguir ver me angustiava. Fui arrastada, sentia areia em meus pés, e comecei a ver ao longe uma névoa, mas não seguiamos para lá, estava apenas de passagem, observar, sentir, nada além. Consigo ver uma silueta, parece um ser humanoide, sem face definida, seus olhos pareciam apenas sombras, seus braços apontam uma direção, percebo que terei que seguir sem sua companhia. Continuo como que flutuando, e chego a uma colonia, uma cidade branca cresce conforme me aproximo, sua ruas tornam-se nitidas, a luz do lugar consegue me envolver, e volto a enxergar todos os detalhes, não vejo seu habitantes, mas sinto suas presenças a me observarem das janelas, as casas são simples e charmosas, tudo branco. No chão, vejo algumas conchas, pego algumas, e vejo que todas possuem uma inscrição, mas não sei identificá-las, guardo, e continuo a procurar algo pela cidade.
Sigo em direção centro, e conforme me aproximo, sinto que estou perto de minha busca, vejo alguns seres, mas se afastam com minha presença. Abrem caminho para que eupasse, sinto que o que está ali, é para mim. Quando vejo, em um pedestal, uma linda pedra azul, a única cor que vi ali. Pego a pedra e a guardo. Nesse momento, toda a tranquilidade vai embora, os seres passam como que em fuga, e eu sinto uma imensa vontade de respirar, lembro-me da descida, o quão longa foi, e tudo começa a ficar confuso, rodar, quero respirar, preciso respirar, preciso de AR, chega de água, e um zumbido toma conta de mim...
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