quinta-feira, 19 de maio de 2011

A jornada do ar - parte 1

O vento soprava forte, a vila parecia vazia, apenas pequenos rodamoinhos davam algum movimento por onde passava. As casas eram antigas,sua pintura desbotada não deixavam dúvidas, tudo ali parecia gritar, mas o único som audível era o ruído do vento e o ranger de portas e janelas, provavelmente esquecidas abertas.

Tudo parecia ter sido deixado para trás, as pressas, sem nenhum cuidado em levar algo, apenas vestígios do que foi um dia e nada além. A vila estava abandonada e essa visão causava um torpor difícil de explicar, como se algo lhe segurasse naquele momento e pedisse ajuda.

"Traga-me de volta a vida" - o vento assobiava pelos cantos aos visitantes que por algum infortunio por ali passasse.

Nada que pudesse sussurrar seria ouvido naquele momento, pois naquele mesmo instante vi uma casa aos pés da montanha, cuja chaminé emitia uma tênue fumaça. Era o primeiro sinal de vida que encontrava depois de tantos dias caminhando.

Meus pés cansados não permitiam que andasse mais rápido e a ansiedade penalizava cada músculo para que dessem mais de si. Não era o bastante, a casa parecia distanciar-se a cada passo. Apesar do vento trazer um ar fresco e um forte cheiro de café, minha respiração ficava cada vez mais pesada, talvez por não lembrar quando tinha sido feita a última refeição. Desde que as provisões acabaram, por alguma estranha razão todo e qualquer povoado que encontrara até então estavam abandonados. Quando decidira fazer esse caminho, fizera todos os planos necessários, mas seus mapas não previam cidades vazias.

Aquela fumaça, era a única esperança.

segunda-feira, 16 de maio de 2011

Visitas no almoço

Estava num quintal, e sabia que nele seria preparado o almoço, que desta vez, seria diferente, pois convidados muito distantes estavam sendo esperados. O que eu sabia dos convidados era apenas que eram parentes de meus avós, e portanto, meus tios distantes... Láaaaaaa das terras orientais e nórdicas e frias...

Bom, quando chegaram, fui observar, e pareciam pessoas normais, nada que chamasse atenção ou os diferenciasse, a não ser que começassem a falar! É, pois é, ele falavam outra língua... e só quem entendia era minha vó... e só quem a enxergava era eu... :D

Ok, então comecei a 'interpretar', e assim passei a ser referência sobre o que os 'tios' queriam ou estavam precisando. Na verdade, era fácil, eles queriam algo diferente do que estavam acostumados, e não sei ao certo por que, camarões começaram a ser preparados de diversas formas, principalmente
fritos. Não me lembro para quem pedi, mas pedi a alguém que descascasse um abacaxi, e prossegui delegando tarefas. Eram apenas 3 ou 4 senhores, poucos, mas dividimos as pessoas (família, tias, pais...) em dois ambientes.

Uma das situações que me aborreceu, foi quando coloquei uma garrafa de vinho branco na mesa em que sentaria, e fui levar um rosé na outra, quando voltei para o 'meu' lugar, o povo já havia acabado com tudo, não havia sobrado nem uma gota (é ou não é pra ficar furiosa?). Ok, mataram meu Sauvignon, então fui procurar outro, não encontrei, e acabei me distraindo pela outra mesa, acabei ficando por lá.

Os 'tios' comeram por bastante tempo, e sempre elogiavam ou pediam mais, bebiam muito rápido, na verdade, parecia que eu estava servindo água fresca, o clima estava ameno, e o cheiro dos camarões estavam impregnando no local. Estava arrumando acomodações num outro ambiente quando acordei.

sexta-feira, 13 de maio de 2011

Ruínas no deserto

Estava com o Gi, e andávamos em meio a areia, o sol estava forte, e procurávamos por uma sombra, quando vimos algumas ruínas. O Gi saiu correndo na minha frente, e sumiu entre as paredes destruídas, fui atrás, e entramos no que parecia ter sido, um dia, uma sala. Não haviam paredes inteiras, apenas os restos.

A sala parecia ser grande, e mais a nossa frente, havia uma abertura, que um dia devia ter sido uma porta, e por ela passamos. O lugar estava iluminado por uma tocha, minha mãe estava ali, próxima a uma outra porta. o Gi correu em direção ao que sobrou de uma estante, ainda havia livros, eram volumes enormes, com capa dura, nem todos estavam inteiros, e indo em direção a minha mãe, vi que a sala em que estava tinha o chão de terra, e várias estantes, todas derrubadas, parecia que um tornado por ali havia passado. Ouvi a chamar pelo Gi, mas ele estava entretido em uma estante, parecia procurar por algo específico.

Entrei na sala seguinte, e comecei andar por entre as estantes...

(não briguem comigo, mas o despertador tocou!!) :D

Ps. o Alarme de movimento, já havia tocado, isso significa que o sonho ocorreu nos 10 minutos que separam o primeiro alarme para o segundo.

sábado, 7 de maio de 2011

Mãos e unhas

E mais uma vez eu tendo sonhos de Penélope Charmosa, estava em algum lugar, ao ar livre, cuidando de minha unhas, pintando, mas não gostava do resultado, achava tudo estranho, principalmente a cor! A primeira pincelada, saiu uma cor rala e escura, algo que lembrava muito um verde com dourado de fundo (olha que chique, cremoso e cintilante num único vidrinho!!). Quando olha para o resultado do todo, achava horrível, a cor na unha, parecia mutante, continuava mudando, e ai, decidi que passaria de novo, peguei um outro esmalte, desta vez emprestado, e voltei a pintar, mas em cima do anterior, e... imagine, a cor continuou a mesma, mas a coisa não estava mais rala, ficou grossa, obviamente mil vezes mais ridícula do que da primeira vez, e eu ficava olhando para minhas mãos e unhas, achando muito estranho o que acontecia com a cor, sempre enxergando verde e dourado...

Curiosidades: 
Engraçado, escrevendo agora sobre esse sonho, lembrei-me que certa vez comecei a fazer os exercícios de um livro de sonhos (Castañeda), o qual parei no primeiro, já que precisava completar o primeiro exercício para seguir adiante. Qual o primeiro exercício? Sonhar e olhar para as mãos. A única diferença, eu deveria ter consciência disso.
Veja mais: A Arte do sonhar, Carlos Castañeda


sábado, 2 de abril de 2011

O dragão branco



Caminhava pela areia, sentia o cheiro do mar cada vez mais próximo, e antes que pudesse vê-lo, percebi uma velha senhora caminhando em minha direção. Não vi de onde vinha e nem questionei, apenas retribui o sorriso, enquanto me acenava para que a seguisse. Ela começou a caminhar na direção do mar...

Já conseguia ver o mar quando me pediu que sentasse, e assim o fiz, ela me esperou, para poder sentar-se a minha frente, continuava sorrindo. Parecia feliz mas nada falava. Ela sinalizou para que eu olhasse o mar, e percebi então que não ouviria sua voz.

As águas estavam agitadas, e ondas quebravam a todo momento, não sabia o que precisava enxergar, quando comecei a ouvir uma voz... Olhei para a senhora ao meu lado, muda e sorridente, não era ela, e a voz voltou apenas dizendo "não tente entender, apenas observe e escute". As ondas pareciam lutar contra um inimigo invisível, tamanha sua violencia, cheguei a sentir medo, quando vi sua furia se aproximando, mas nada, nem um respingo chegava até nós.

A altura das ondas e sua imponencia assustavam, ficavam mais altas, paravam, e quebravam, e foi num desses instantes, enquanto uma onda formava-se e crescia sem parar, que voltei a ouvir a voz... sentia que era a velha falando, mesmo sem voz, ela simplesmente dizia, "observe o dragão branco, ele está voltando...". Enquanto isso eu olhava o mar, e apenas via o mar, revolto em suas grandes ondas, quebrando com força contra o inimigo invisível...


Curiosidades:
- Dragão branco

quarta-feira, 23 de março de 2011

Encontro com Saturno

Estava na estrada, num desses momentos em que dirigia apenas pelo prazer, sem rumo certo, apenas para reflexão... A constante na estrada costuma trazer conclusões rápidas, onde um devaneio não pode durar mais de dois segundos. Com a atenção dobrada, é fácil esvaziar a mente, e conseguir concentrar-se para o que realmente importa.

Não foi diferente nesse dia, havia entrado em conflito após fazer algumas contas, quando resolvi refletir o por que desse 'balanço' nunca equilibrar-se. Tudo estava confuso, de repente ouvia vozes fazendo perguntas e mais perguntas, cujas respostas eu sabia, mas tinha vergonha de pronunciá-las: o que você fez, o que você tem, o que você é, o que pretende mudar, o que pretender ganhar, aonde quer chegar?? Elas assolavam meu ego, a negativa não saia de minha mente, de meu ser... Nada! Nada! Nada! E... Não sei, não sei, não sei... O odioso não saber, que paralisa muitos e assusta outros tantos que chegam nessa passagem. Lembrei-me de Atreiú (História sem fim) quando tenta passar pelas esfinges - "somente aquele com o coração sincero consegue passar..." e qualquer dúvida sobre sua coragem, seu ser, pode impedí-lo de passar, e seu caminho ter um fim não desejado.*

Comecei a buscar um lugar para parar um pouco e tomar um bom e forte café, pois percebi que o passeio daquele dia iria durar um pouco mais do que de costume. Não conhecia a estrada, levei quase meia hora para encontrar um lugar aberto, claro, sempre faço essas viagens a noite, é como uma proteção. O estacionamento estava praticamente vazio, podia chegar a algumas conclusões: ninguém mais com insônia ou o café seria uma droga. Bem, não tinha escolha, parei ali mesmo. Pedi o café, e voltei ao carro devagar, notei alguém sentado perto, na guia. Entrei no carro, mas minha atenção voltou-se para a figura parada próximo ao carro, era um velho, ou alguém que aparentava ser velho, e brincava com um isqueiro. Não fechei a porta, virei-me em sua direção, e ofereci o café, que foi recusado rapidamente. Iria deixá-lo ali, o que me importava, tinha outras coisas a buscar, refletir, que diferença faria??

- A diferença está em como encaramos tudo... a vida, os problemas, as pessoas...

- O que? O Senhor está falando comigo?!?!?!?

- Tem mais alguém aqui?

Ok. Entendi. Agora mendigos leem pensamentos, e respondem as grandes dúvidas da humanidade, ou sei lá, simplesmente do meu insignificante ser...

- Insignificante é a maneira como Você decidiu se enxergar!

- Ok. E posso saber quem é você ?

- Isso não importa agora, importa quem é Você! Não importa nem a maneira como me vê, mas atente ao fato que posso ser apenas um espelho... Eu sou o que sou, e Você, é o que é? O Tempo não pode ser recuperado, então, por que perdê-lo buscando o que já encontrou? Todas as perguntas, tornam-se respostas um dia, mas quando viram respostas, as perguntas mudaram e a isso chamamos ciclo. E o ciclo nunca pára, não importa onde você esteja. O problema, não são as perguntas, mas o que Você faz com as respostas.

Entrei no carro, havia encontrado respostas demais para uma viagem só, olhei pelo retrovisor, e como já esperava, o velho não estava lá. Até a próxima, pois agora, estou indo pra casa. Quem sabe fazer mais perguntas...


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* "...a Porta do Grande Enigma..., ...as duas esfinges. Essa porta está sempre aberta... O que é lógico. Não tem batentes. Apesar disso, ninguém pode passar para o outro lado, a menos que..., as esfinges fechem os olhos. E sabe por quê? Porque o olhar de uma esfinge é totalmente diferente do olhar de qualquer outro ser. Nós e todos os outros seres olhamos para alguma coisa. Vemos o mundo. Mas uma esfinge não vê nada: em certo sentido, é cega. Em contrapartida, seus olhos transmitem algo. E o que seu olhar transmite? Todos os enigmas do mundo. Por isso, as duas esfinges estão sempre a olhar uma para a outra. Porque só uma esfinge pode suportar o olhar de outra esfinge. E agora imagine o que será de uma pessoa que se atreva a interferir na troca de olhares entre ambas! Fica ali, petrificada, e não poderá mover-se antes de ter decifrado todos os enigmas do mundo."
(História Sem Fim, de Michael Ende)

terça-feira, 1 de março de 2011

Ajuda silenciosa

A garotinha estava sentada no meio fio, chorava copiosamente quando lhe perguntei o que havia acontecido para tanta tristeza. Aos soluços, ela me explica que havia derrubado o leite, e o pote havia se quebrado e não tinha outro para substituir, - ela carregava o leite em um pote de vidro, sua capacidade devia ser maior que 1 litro - e diante disso, estava com medo de voltar para casa, preferia ficar ali, chorando e chorando.

Não sabia como ajudá-la, pensei, e tentei arrumar uma solução, nenhuma de minhas sugestões foram aceitas, tal como "o que acha que explicar para sua mamãe que foi sem querer?", e "se você disser que paga o próximo?". Nada surtia efeito, era praticamente impossível plantar um sorriso naquele pequeno rosto. Resolvi deixá-la, não sabia exatamente o que fazer, mas ali, nada conseguiria.

Continuei a caminhar na rua de paralelepípedos, mesmo depois de muito andar, ainda ouvia os soluços da garotinha. Eu não sabia para onde estava indo, mas parei em frente ao que seria a possível solução: a mercearia. O dono estava lendo um jornal distraídamente ao fundo do balcão, o rapaz que o ajudava ia de um lado para o outro atendendo desde crianças assustadas a senhoras apressadas. Estava difícil de chamar a atenção de alguém naquele lugar, mas tive uma idéia!

O dono parecia uma boa pessoa, mas estava por demais entretido em seu jornal, assim desisti dele, ao menos, por enquanto. Olhando melhor, notei uma jovem senhora a um canto, esperando tranquilamente por sua vez, seus olhos doces chamaram minha atenção, assim a escolhi para ajudar a garotinha triste. Esperei que ela fizesse o pedido, e sussurrei lhe que poderia comprar um pote a mais de leite, para o caso de uma eventualidade, como fazer seus famosos pãezinhos para uma visita inesperada... Para minha surpresa, rapidamente ela atendeu meu sussurro, e dobrou a quantidade de leite, farinha, fermento. Fiquei feliz, havia conseguido uma parte, agora precisava mudar seu caminho, o que não era difícil, já que a garotinha estava a alguns quarteirões da avenida principal, e como chorava alto, difícil não chamar atenção. De qualquer forma, acompanhei-a, para não haver enganos, seus ouvidos atentos logo se alarmaram e procuravam a origem do choro, sem influência alguma, ela encontrou a garotinha. Fiquei feliz por ter escolhido a pessoa certa.

A jovem ajoelhou-se aos pés da menina, e perguntou-lhe o que havia acontecido. A garotinha olhou para mim, e falou "você não precisava ter trazido sua mãe!!" - enquanto isso, a jovem a encarava com olhar duvidoso, e insistia em saber o que havia acontecido.

- "Por que você não contou pra ela? Eu derrubei o leite e não posso voltar assim para casa!"

E voltou a chorar e encolher-se, aliás, suas lágrimas praticamente não existiam mais, de tanto que já chorara. A jovem, com um pouco de dificuldades, entendeu, e ofereceu um de seus potes a garotinha, que recusou, e disse que seria pior chegasse em casa com um pote diferente. A moça insistiu, explicou, disse que a acompanharia, mas nada colocava um sorriso naquele rosto. Assim, sugeri que deixa-se ali o pote e partisse, e ela assim o fez.

Quando a jovem levantou-se, e continuou seu caminho, deixando um pote para trás, a garotinha parou um pouco, e entre soluços e perguntou-me:

- Você não vai com sua mãe?

- Eu já estou com ela... :-)
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